quarta-feira, 2 de setembro de 2020

 


Roberto Amaral: Uma incursão aos diários de Celso Furtado

Foto: Reprodução

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Autor de Formação Econômica do Brasil se destaca por ter procurado a economia para melhor compreender a história

A função do conhecimento histórico é deitar luz sobre caminhos a serem percorridos pelos que estão chegando à arena; o futuro é gestado no presente, que, porém, não se livra de seu passado, como lembrava Marx: não são apenas os vivos que nos atormentam, os mortos também. Em outras palavras, somos (ou seremos) o que fizemos.

Ao lado das contingências estruturais, das leis tendenciais da história e das figuras coletivas e populares, há o imprescindível papel da vontade individual.

É o campo dos grandes líderes (aqueles que compreendem o processo histórico) e dos grandes pensadores, capazes mesmo de alterar o aparente curso natural dos acontecimentos. São quase sempre intelectuais orgânicos que se apartam de sua origem pequeno-burguesa, abraçam a defesa dos interesses das grandes massas e dedicam a vida a um projeto de país e sociedade em contraste com o statu quo. São políticos, estadistas, pensadores, pioneiros, contestadores da ordem dominante, os lutadores de toda a vida.

A galeria dos brasileiros com tais atributos é modesta, mas em qualquer seleção, a mais severina, figurará com destaque, no século XX, olhando para a frente, a vida-obra de Celso Furtado, unidade indissolúvel.

O autor de Formação econômica do Brasil, obra seminal, indispensável para qualquer tentativa de compreensão do problema-Brasil, se destaca, entre os poucos pares, por haver procurado a economia para melhor compreender a história e, assim, e por essa via, tornar-se um humanista, no sentido mais rigoroso da palavra.

Homem de seu século, aceitou o desafio de tornar-se sujeito consciente da história, consciente das consequências dessa decisão, a primeira e a mais cara de todas sendo a renúncia à vida privada e projetos pessoais. Tinha presente a advertência de Platão: “Aqueles que controlam o poder – os governantes e os guerreiros – teriam de renunciar às ideias de família e propriedade”.

Furtado diz que o problema fundamental de sua vida é a preocupação com os problemas do “homem geral”:

“Toda a minha vida tem sido marcada por essa preocupação, como se me sentisse responsável pela pobreza, pelos sofrimentos dessa pobreza, pela condição de animalidade em que vive grande parte da humanidade”. Liberto de condicionantes religiosos, explica: “O que me preocupa é a deformação, a abjeção humana provocadas pela organização social baseada na exploração econômica ou dominação política de muitos por poucos”.

O autor de Formação Econômica do Brasil  se destaca, por haver procurado a economia para melhor compreender a história

Cedo, no início de sua formação, ainda estudante no Recife, ou recém chegado ao Rio para o curso de direito, Celso, como assinalou João Antonio de Paula, está obsedado pelo desafio de responder à interrogação fundante: “o que é o Brasil, como entendê-lo, como fazer para transformá-lo, para superar seus impasses e suas crônicas iniquidades”. Cedo sabe que o homem é quem traça o seu destino, decide-se a fazer escolhas.

Arquiteto de sua própria vida, antevê seu papel – contribuir para revolver as estruturas arcaicas –, e a esse objetivo condiciona sua existência. É admirável a firmeza de propósito, a clareza de objetivos que marca sua vida, como uma linha reta.

Constrói-se como o mais importante intelectual público de sua geração, e, dentre aqueles que se dedicaram a pensar o Brasil deixa a mais extensa bibliografia, a que não faltou, ao lado das incursões teóricas, da formulação de interpretações e formulação de esquemas históricos, a intervenção no dia a dia da política, do mundo real.

Não recuou nos embates, seja lá trás no enfrentamento ao latifúndio no nordeste, seja no ministério enfrentando as forças do passado que se opunham ao desenvolvimento nacional. Seja na cátedra, seja nos seus muitos livros, escritos como peças de artilharia no combate ao atraso, no Brasil e na América Latina a cujo desenvolvimento dedicou o melhor de sua vida.

Durante anos seguidos fustigou a política econômica da ditadura e, quando se pensava que a Nova República reconstruiria o Brasil, aliou-se a jovens economistas de oposição como Luciano Coutinho e Luiz Gonzaga Beluzzo na formulação de programa econômico para o frustrado governo Tancredo Neves.

Voltando-se ao estudo do subdesenvolvimento, rejeitou as teses fatalistas; o subdesenvolvimento não era uma etapa necessária para o desenvolvimento capitalista. Escreverá: “as enormes disparidades das condições de vida não constituem apenas um fenômeno econômico; mas político e social”, porque “o excedente é um fenômeno social produzido por toda a sociedade, mas apropriado por alguns. É na apropriação do excedente que geralmente damos conta da política de um país”.

No caso de Celso Furtado, mais do que a de qualquer outro intelectual brasileiro, há uma fusão entre vida e obra, e, para harmonizá-las, o pensador também se fez político e homem de Estado: jornalista, escritor, economista, historiador, professor, memorialista, ministro, embaixador.

No quarto aniversário do golpe de 31 de agosto de 2016, neste ano e meio de bolsonarismo, procuro nutrir as esperanças envelhecidas na leitura de Diários intermitentes de Celso Furtado, obra que a inteligência brasileira – aquela voltada para o esforço de compreender este país e suas tragédias – deve à paixão e à lucidez, à competência e à dedicação sem fim de Rosa Freire D´Aguiar, jornalista, escritora, pesquisadora incansável.

O texto no qual me fixo é do distante 1979, e Celso toma do seu diário no dia de natal.

Começara naquela altura a longa agonia do regime militar, velho de 15 anos, que ainda nos afligiria por seis anos, não se sabia então. O “Brasil potência” do “milagre econômico” dera com os burros n´água. Vivíamos e sofríamos sob o governo do general Figueiredo, aquele que detestava o povo e adorava o fartum das baias onde reabastecia as energias perdidas com os fazeres da presidência.

A dramaticidade da fotografia de Furtado está em sua atualidade, passados 41 anos! Leiamos:

“Que quadro tão melancólico é o que nos apresenta este país. A situação econômico-financeira é extremamente grave, mas o governo não faz outra coisa senão enganar o povo. E também enganar os empresários, aparentemente desejosos de se deixar enganar, ou pelo menos temerosos de ver a realidade. […] E ninguém dá maior atenção a tudo isso. O objetivo único é conservar o poder e dar a impressão de que o país somente irá adiante se essa impostura de política liberal é mantida. Que pretende essa gente? Provocar o caos para impor uma camisa de força ao povo, agravar a concentração de renda, aprofundar a miséria do povo? Até quando se prestarão os militares a servir de instrumento a essa gente? E que opção se poderia apresentar a tudo isso? As oposições estão fragmentadas e absorvidas pelo jogo da pequena política”.

O governo militar, como se sabe, sobreviveria por mais seis anos, ditaria as condições de sua retirada de cena (uma delas, a impunidade dos torturadores) e estabeleceria os limites da constituinte. O regime decaído, na estranha conciliação dos príncipes, sobreviveria no governo civil da redemocratização, e os generais seriam tutores, monitores e curadores do governo da nova república, chefiado por José Sarney, o presidente da Arena, o partido da ditadura.

Uma vez mais os tempos passados pressagiando os tempos que estavam por vir, e que estamos a viver.

A dura leitura que Celso faz daqueles idos não é impressionista; ele voltaria ao tema no dia seguinte, e, pelo que escreve, parece estar olhando para nossos dias. Qual descrição mais realista dos tempos de hoje poderia sobrepor-se a essas linhas, escritas há tantos anos, originalmente destinadas ao resguardo histórico?

Vejamos:

“[…] Agora as coisas são ainda piores do que na fase pré-64, porque o centro da cena está ocupado por militares ignorantes ou maquiavélicos e por tecnocratas travestidos de estadistas e aventureiros disfarçados de tecnocratas. Engana-se o povo da maneira mais descarada”.

O conhecimento da história, não é um fim, tão pouco a história se congela, ainda que o reacionarismo larvar – bactéria presente em toda a história da humanidade – tudo encete para prorrogar o passado. A emergência do presente, é inelutável, principalmente quando dispõe da força do homem para acioná-la. Mudar a história, todavia, é engenho e arte que na política se traduz por organização e liderança. No momento carecemos de ambas. E as grandes lideranças não são fruto do acaso, não nascem do nada, nem caem dos céus como as chuvas. São sempre produto histórico-social. Entre nós a emergência de grandes lideranças populares tem sido avara, e contam-se nos dedos de uma mão quantas na República surgiram, para conhecer seu crepúsculo quando mais delas o processo histórico aguardava intervenção.

Não obstante, não há por que perder a esperança – e muito menos ensarilhar as armas – quando estamos sustentados por aquilo que Celso chamava de “otimismo histórico”, atribuindo-o à sua formação “meio marxista, meio positivista”.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

 IKIAM, NATUREZA DOMESTICADA, PROJETO CIVILIZATÓRIO E AMAZÔNIA:

 

Entre maio e julho de 2017, passei longos períodos na cidade de Tena, na Amazônia do Equador, para conhecer de perto o projeto da Universidade IKIAM, criada por Rafael Correa, que nesse momento, tendo eleito um sucessor indicado por ele, se despedia de dois mandatos, prestando detalhadas contas ao povo equatoriano ao longo de meses, sobre suas realizações, dificuldades e obstáculos, além de contabilidade de tudo. Também realizava suas últimas obras, tais como um museu público, no qual ele e a esposa depositaram todos os objetos que ganharam de presente ao longo do exercício da presidência, geralmente presentes de outros chefes de Estado do mundo - como é de praxe presentear ao chegar para uma visita. 

Eu tinha grande interesse em conhecer o projeto da IKIAM porque se alinhava exatamente com o que eu propunha há muito tempo que se fizesse na Amazônia: cooperação entre universidades públicas de todos os países que compartilham a Amazônia: as três Guianas, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia e Brasil. E envolvendo projetos de etnodesenvolvimento de forma sistemática para as populações locais, conforme as diretrizes acumuladas por conhecimentos da Antropologia Social, minha área de estudo. Inclusive intensas pesquisas de etnobotânica, não com a finalidade de suprir informações e materiais a serem patenteados pelos grandes laboratórios mundiais que lucram com a criação de doenças, mas sim, com o objetivo de suprir as populações locais e o mundo com novas fontes de renda e mercadorias de interesse em regiões mais amplas de comércio justo e trocas solidárias. 

Infelizmente, no Brasil, a atuação junto a comunidades indígenas da Amazônia - que exclui outras populações residentes na nossa Amazônia que ficam marginalizadas - passou a ser financiada por interesses outros, que pretendem promover e promoveram a retirada das comunidades de suas terras e uma ideia de "preservação" absolutamente equivocada do ponto de vista científico, visando no fundo de tudo o interesse das corporações que vêm tomando conta de todo o território da Amazônia, onde agora corremos o risco de que se deflagre uma guerra contra a Venezuela. Para isso, até queimar a Amazônia e outras regiões intencionalmente, como vem ocorrendo desde o ano passado, é legítimo, com o objetivo de deslegitimar nossa soberania e a permanência de nossos povos - inclusive indígenas - nessa vasta região, que compreeende o maior território desses países todos e também a maior riqueza de biodiversidade, água e outros recursos do mundo todo. 

Como muitas publicações que se dizem pretender combater o capitalismo na verdade ignoraram esse debate durante muito tempo, agora, por ignorância ou por financiamentos também (que é o que acredito que esteja ocorrendo - por financiamentos), passaram elas mesmas a publicar as propostas da Economia de Davos - embora continuem defendendo o Fórum Social Mundial - um fórum caro e cujos objetivos nunca foram atingidos, porque os problemas de cada região do mundo se resolvem na terra e concretamente entre os povos de cada região - e não dentro dessa lógica globalizada. 

Enquanto os problemas que os povos dos países ligados à OTAN devem resolver com urgência se referem claramente e objetivamente a refrear seus poderes bélicos (inclusive de armas biológicas e de mudanças climáticas e fabricação de terremotos, tsunamis e outros desastres ambientais), suas corporações e seu sistema especulativo-financeiro. 

Lembrando que fóruns sociais mundiais para criação de uma nova ordem econômica e social mundial pereceram definitivamente no final da década de setenta, quando já começava a ser implantada a atual política generalizada de DOUTRINAS DE CHOQUE, que nessa época se localizavam em alguns laboratórios, particularmente o Chile de Pinochet, onde seus teóricos começaram suas experiências - os teóricos da Escola de Milton Friedmann, onde estudou Paulo Guedes (a Escola de Chicago). 

Segue abaixo, trecho de um texto que escrevi semanas atrás, para falar do projeto da IKIAM. Projeto jamais difundido no Brasil, onde no entanto muitos se esforçaram para desmoralizar a política de Rafael Correa na Amazônia e dividir o movimento indígena por lá, obedecendo a orientações dos que os financiavam, em particular a USAID (entidade do governo americano). 

Isso tudo, infelizmente, é o que os advogados dessa trama, que considero nazista, denominam de "processo civilizatório", porque sequer compreendem que a Amazônia sempre foi povoada por milhares de grupos humanos que - com profundos conhecimentos que estamos destruindo ao longo de pouco mais de cinco séculos, ajudaram inclusive a constituir o que hoje entendemos como um espaço "natural" e que não é: arqueólogos que estudam a Amazônia, para compreender suas civilizações, focam atualmente nas formações vegetais que foram criadas pelos seres humanos que a habitaram e que ainda a habitam. A Amazônia é um espaço de NATUREZA DOMESTICADA. 

  PROJETO PARA A AMAZÔNIA DE RAFAEL CORREA, ABORTADO PELA USAID: 

Enquanto eu estava no Equador, soube que  o projeto da IKIAM, universidade criada  pelo Rafael Correa, que tinha por objetivo geral pesquisar técnicas para o desenvolvimento sustentável da Amazônia, teve sua fonte de financiamento impedida, por protestos indígenas que dividiram o movimento indígena entre índios da selva e índios andinos. Era um protesto contra a exploração de petróleo numa área indígena na região de Sucumbios, uma região miserável da fronteira do Equador com a Colômbia, que certamente o Rafael Correa pretendia controlar (região de muito narcotráfico e contrabando) e atender melhor também, a partir desse projeto. Ele pretendia fazer isso de forma sustentável, mas desistiu do projeto diante dos protestos. (...) Foi um momento em que financiadores apertaram o cerco ideológico sobre o Equador também. E começaram a levantar o nome do atual presidente traiçoeiro, Lenin Moreno (...). Um demagogo piegas. 

Essa divisão dos movimentos indígenas no Equador, por sua vez, foi também promovida por ONGs ligadas a USAID, entidade do governo norte-americano expulsa do país, mas que continuava avançando através de ONGs. Inclusive brasileiras.(...)

Esse mesmo esquema foi o que condenou a grande líder indígena guatemalteca, Rigoberta Menchu, como alguém que teria sido corrompida pelo governo do PRI no México, logo depois que ela esteve no Equador apoiando Rafael Correa no seu intento de processar a Chevron por ter derramado óleo cru em floresta equatoriana ao longo de dez anos, prejudicando mais de 30 mil índios. (Lembrando que a maior parte do território equatoriano é ocupado por índios de origens diversas.) No Brasil, contestei artigo da ADITAL, dirigida por católicos, que caluniava Rigoberta Menchu, mas nunca tive minha contestação publicada por eles. Ou por qualquer outra publicação. Ela esteve no México para pedir paz durante protestos contra as eleições. Disseram que ela  tinha sido paga pelo PRI. Ela foi a convite do Tribunal Eleitoral do México. E doou o que ganhou por suas palestras a entidades indígenas. 

Recentemente, o Tribunal da Haya, tribunal das Nações Unidas, com ajuda de informações encaminhadas por Lenin Moreno, condenou o governo equatoriano a pagar uma indenização à Chevron por ter pretendido multar a multinacional americana por despejar óleo cru na selva por mais de dez anos. Vejam a ironia. 

O projeto da IKIAM com suas quatro linhas de pesquisas, uma delas, a pesquisa científica da etnobotânica indígena da selva, visando a criação de projetos de etnodesenvolvimento a serem implementados pelas diretorias regionais de etnodesenvolvimento implantadas pelo governo de Rafael Correa de forma sistemática em todo o país, ficou paralisado por falta de fontes de financiamento, já que o planejamento de Rafael Correa previa que isso ocorresse a partir da exploração de petróleo em Sucumbios, o que foi impedido por protestos indígenas encabeçados por líderes indígena da selva, de oposição ao governo. Parece que em particular, um deles. Essa - para Rafael Correa - seria a única forma de evitar recorrer a financiamentos externos, subordinados a altos juros e condicionantes políticas, a exemplo do que Lenin Moreno faz agora, depois de pedir gigantesco empréstimo ao FMI - alegando que Rafael Correa teria deixado seu governo endividado - o que não é verdade. 

Mas, nada disso é divulgado no Brasil. Embora eu compartilhe estas informações com editores há muitos anos. 

Esse mesmo líder indígena de oposição apresentou um projeto de universidade indígena onde as "Epistemologias do Sul" seriam ensinadas.  Ele pretendia que o governo financiasse o projeto. O governo disse que não dispunha de verbas para isso. E novamente, Rafael Correa foi acusado de perseguição ideológica. O que Rafael Correa tinha respondido à solicitação de apoio a essa nova universidade é que não havia verbas, assim como a IKIAM tinha parado muitos de seus projetos pelo mesmo motivo e que a proposta da universidade não tinha embasamento científico. 

Nada impede que uma universidade do norte crie um espaço para estudar essas epistemologias por lá e os financie. O interessante é que prefiram financiar protestos contra um governo do Sul por não fazer isso. Imposições estranhas, não? 

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1 de setembro de 2020. Inês Rosa Bueno - antropóloga brasileira.