terça-feira, 1 de setembro de 2020

 IKIAM, NATUREZA DOMESTICADA, PROJETO CIVILIZATÓRIO E AMAZÔNIA:

 

Entre maio e julho de 2017, passei longos períodos na cidade de Tena, na Amazônia do Equador, para conhecer de perto o projeto da Universidade IKIAM, criada por Rafael Correa, que nesse momento, tendo eleito um sucessor indicado por ele, se despedia de dois mandatos, prestando detalhadas contas ao povo equatoriano ao longo de meses, sobre suas realizações, dificuldades e obstáculos, além de contabilidade de tudo. Também realizava suas últimas obras, tais como um museu público, no qual ele e a esposa depositaram todos os objetos que ganharam de presente ao longo do exercício da presidência, geralmente presentes de outros chefes de Estado do mundo - como é de praxe presentear ao chegar para uma visita. 

Eu tinha grande interesse em conhecer o projeto da IKIAM porque se alinhava exatamente com o que eu propunha há muito tempo que se fizesse na Amazônia: cooperação entre universidades públicas de todos os países que compartilham a Amazônia: as três Guianas, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia e Brasil. E envolvendo projetos de etnodesenvolvimento de forma sistemática para as populações locais, conforme as diretrizes acumuladas por conhecimentos da Antropologia Social, minha área de estudo. Inclusive intensas pesquisas de etnobotânica, não com a finalidade de suprir informações e materiais a serem patenteados pelos grandes laboratórios mundiais que lucram com a criação de doenças, mas sim, com o objetivo de suprir as populações locais e o mundo com novas fontes de renda e mercadorias de interesse em regiões mais amplas de comércio justo e trocas solidárias. 

Infelizmente, no Brasil, a atuação junto a comunidades indígenas da Amazônia - que exclui outras populações residentes na nossa Amazônia que ficam marginalizadas - passou a ser financiada por interesses outros, que pretendem promover e promoveram a retirada das comunidades de suas terras e uma ideia de "preservação" absolutamente equivocada do ponto de vista científico, visando no fundo de tudo o interesse das corporações que vêm tomando conta de todo o território da Amazônia, onde agora corremos o risco de que se deflagre uma guerra contra a Venezuela. Para isso, até queimar a Amazônia e outras regiões intencionalmente, como vem ocorrendo desde o ano passado, é legítimo, com o objetivo de deslegitimar nossa soberania e a permanência de nossos povos - inclusive indígenas - nessa vasta região, que compreeende o maior território desses países todos e também a maior riqueza de biodiversidade, água e outros recursos do mundo todo. 

Como muitas publicações que se dizem pretender combater o capitalismo na verdade ignoraram esse debate durante muito tempo, agora, por ignorância ou por financiamentos também (que é o que acredito que esteja ocorrendo - por financiamentos), passaram elas mesmas a publicar as propostas da Economia de Davos - embora continuem defendendo o Fórum Social Mundial - um fórum caro e cujos objetivos nunca foram atingidos, porque os problemas de cada região do mundo se resolvem na terra e concretamente entre os povos de cada região - e não dentro dessa lógica globalizada. 

Enquanto os problemas que os povos dos países ligados à OTAN devem resolver com urgência se referem claramente e objetivamente a refrear seus poderes bélicos (inclusive de armas biológicas e de mudanças climáticas e fabricação de terremotos, tsunamis e outros desastres ambientais), suas corporações e seu sistema especulativo-financeiro. 

Lembrando que fóruns sociais mundiais para criação de uma nova ordem econômica e social mundial pereceram definitivamente no final da década de setenta, quando já começava a ser implantada a atual política generalizada de DOUTRINAS DE CHOQUE, que nessa época se localizavam em alguns laboratórios, particularmente o Chile de Pinochet, onde seus teóricos começaram suas experiências - os teóricos da Escola de Milton Friedmann, onde estudou Paulo Guedes (a Escola de Chicago). 

Segue abaixo, trecho de um texto que escrevi semanas atrás, para falar do projeto da IKIAM. Projeto jamais difundido no Brasil, onde no entanto muitos se esforçaram para desmoralizar a política de Rafael Correa na Amazônia e dividir o movimento indígena por lá, obedecendo a orientações dos que os financiavam, em particular a USAID (entidade do governo americano). 

Isso tudo, infelizmente, é o que os advogados dessa trama, que considero nazista, denominam de "processo civilizatório", porque sequer compreendem que a Amazônia sempre foi povoada por milhares de grupos humanos que - com profundos conhecimentos que estamos destruindo ao longo de pouco mais de cinco séculos, ajudaram inclusive a constituir o que hoje entendemos como um espaço "natural" e que não é: arqueólogos que estudam a Amazônia, para compreender suas civilizações, focam atualmente nas formações vegetais que foram criadas pelos seres humanos que a habitaram e que ainda a habitam. A Amazônia é um espaço de NATUREZA DOMESTICADA. 

  PROJETO PARA A AMAZÔNIA DE RAFAEL CORREA, ABORTADO PELA USAID: 

Enquanto eu estava no Equador, soube que  o projeto da IKIAM, universidade criada  pelo Rafael Correa, que tinha por objetivo geral pesquisar técnicas para o desenvolvimento sustentável da Amazônia, teve sua fonte de financiamento impedida, por protestos indígenas que dividiram o movimento indígena entre índios da selva e índios andinos. Era um protesto contra a exploração de petróleo numa área indígena na região de Sucumbios, uma região miserável da fronteira do Equador com a Colômbia, que certamente o Rafael Correa pretendia controlar (região de muito narcotráfico e contrabando) e atender melhor também, a partir desse projeto. Ele pretendia fazer isso de forma sustentável, mas desistiu do projeto diante dos protestos. (...) Foi um momento em que financiadores apertaram o cerco ideológico sobre o Equador também. E começaram a levantar o nome do atual presidente traiçoeiro, Lenin Moreno (...). Um demagogo piegas. 

Essa divisão dos movimentos indígenas no Equador, por sua vez, foi também promovida por ONGs ligadas a USAID, entidade do governo norte-americano expulsa do país, mas que continuava avançando através de ONGs. Inclusive brasileiras.(...)

Esse mesmo esquema foi o que condenou a grande líder indígena guatemalteca, Rigoberta Menchu, como alguém que teria sido corrompida pelo governo do PRI no México, logo depois que ela esteve no Equador apoiando Rafael Correa no seu intento de processar a Chevron por ter derramado óleo cru em floresta equatoriana ao longo de dez anos, prejudicando mais de 30 mil índios. (Lembrando que a maior parte do território equatoriano é ocupado por índios de origens diversas.) No Brasil, contestei artigo da ADITAL, dirigida por católicos, que caluniava Rigoberta Menchu, mas nunca tive minha contestação publicada por eles. Ou por qualquer outra publicação. Ela esteve no México para pedir paz durante protestos contra as eleições. Disseram que ela  tinha sido paga pelo PRI. Ela foi a convite do Tribunal Eleitoral do México. E doou o que ganhou por suas palestras a entidades indígenas. 

Recentemente, o Tribunal da Haya, tribunal das Nações Unidas, com ajuda de informações encaminhadas por Lenin Moreno, condenou o governo equatoriano a pagar uma indenização à Chevron por ter pretendido multar a multinacional americana por despejar óleo cru na selva por mais de dez anos. Vejam a ironia. 

O projeto da IKIAM com suas quatro linhas de pesquisas, uma delas, a pesquisa científica da etnobotânica indígena da selva, visando a criação de projetos de etnodesenvolvimento a serem implementados pelas diretorias regionais de etnodesenvolvimento implantadas pelo governo de Rafael Correa de forma sistemática em todo o país, ficou paralisado por falta de fontes de financiamento, já que o planejamento de Rafael Correa previa que isso ocorresse a partir da exploração de petróleo em Sucumbios, o que foi impedido por protestos indígenas encabeçados por líderes indígena da selva, de oposição ao governo. Parece que em particular, um deles. Essa - para Rafael Correa - seria a única forma de evitar recorrer a financiamentos externos, subordinados a altos juros e condicionantes políticas, a exemplo do que Lenin Moreno faz agora, depois de pedir gigantesco empréstimo ao FMI - alegando que Rafael Correa teria deixado seu governo endividado - o que não é verdade. 

Mas, nada disso é divulgado no Brasil. Embora eu compartilhe estas informações com editores há muitos anos. 

Esse mesmo líder indígena de oposição apresentou um projeto de universidade indígena onde as "Epistemologias do Sul" seriam ensinadas.  Ele pretendia que o governo financiasse o projeto. O governo disse que não dispunha de verbas para isso. E novamente, Rafael Correa foi acusado de perseguição ideológica. O que Rafael Correa tinha respondido à solicitação de apoio a essa nova universidade é que não havia verbas, assim como a IKIAM tinha parado muitos de seus projetos pelo mesmo motivo e que a proposta da universidade não tinha embasamento científico. 

Nada impede que uma universidade do norte crie um espaço para estudar essas epistemologias por lá e os financie. O interessante é que prefiram financiar protestos contra um governo do Sul por não fazer isso. Imposições estranhas, não? 

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1 de setembro de 2020. Inês Rosa Bueno - antropóloga brasileira. 

 

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