IKIAM, NATUREZA DOMESTICADA, PROJETO CIVILIZATÓRIO E AMAZÔNIA:
Entre maio e julho de
2017, passei longos períodos na cidade de Tena, na Amazônia do Equador, para
conhecer de perto o projeto da Universidade IKIAM, criada por Rafael Correa,
que nesse momento, tendo eleito um sucessor indicado por ele, se despedia de dois
mandatos, prestando detalhadas contas ao povo equatoriano ao longo de meses,
sobre suas realizações, dificuldades e obstáculos, além de contabilidade de
tudo. Também realizava suas últimas obras, tais como um museu público, no qual
ele e a esposa depositaram todos os objetos que ganharam de presente ao longo
do exercício da presidência, geralmente presentes de outros chefes de Estado do
mundo - como é de praxe presentear ao chegar para uma visita.
Eu tinha grande
interesse em conhecer o projeto da IKIAM porque se alinhava exatamente com o
que eu propunha há muito tempo que se fizesse na Amazônia: cooperação entre
universidades públicas de todos os países que compartilham a Amazônia: as três
Guianas, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia e Brasil. E envolvendo
projetos de etnodesenvolvimento de forma sistemática para as populações locais,
conforme as diretrizes acumuladas por conhecimentos da Antropologia Social,
minha área de estudo. Inclusive intensas pesquisas de etnobotânica, não com a
finalidade de suprir informações e materiais a serem patenteados pelos grandes
laboratórios mundiais que lucram com a criação de doenças, mas sim, com o
objetivo de suprir as populações locais e o mundo com novas fontes de renda e
mercadorias de interesse em regiões mais amplas de comércio justo e trocas
solidárias.
Infelizmente, no
Brasil, a atuação junto a comunidades indígenas da Amazônia - que exclui outras
populações residentes na nossa Amazônia que ficam marginalizadas - passou a ser
financiada por interesses outros, que pretendem promover e promoveram a
retirada das comunidades de suas terras e uma ideia de "preservação"
absolutamente equivocada do ponto de vista científico, visando no fundo de tudo
o interesse das corporações que vêm tomando conta de todo o território da
Amazônia, onde agora corremos o risco de que se deflagre uma guerra contra a
Venezuela. Para isso, até queimar a Amazônia e outras regiões intencionalmente,
como vem ocorrendo desde o ano passado, é legítimo, com o objetivo de
deslegitimar nossa soberania e a permanência de nossos povos - inclusive
indígenas - nessa vasta região, que compreeende o maior território desses
países todos e também a maior riqueza de biodiversidade, água e outros recursos
do mundo todo.
Como muitas
publicações que se dizem pretender combater o capitalismo na verdade ignoraram
esse debate durante muito tempo, agora, por ignorância ou por financiamentos
também (que é o que acredito que esteja ocorrendo - por financiamentos),
passaram elas mesmas a publicar as propostas da Economia de Davos - embora
continuem defendendo o Fórum Social Mundial - um fórum caro e cujos objetivos
nunca foram atingidos, porque os problemas de cada região do mundo se resolvem
na terra e concretamente entre os povos de cada região - e não dentro dessa
lógica globalizada.
Enquanto os problemas
que os povos dos países ligados à OTAN devem resolver com urgência se referem
claramente e objetivamente a refrear seus poderes bélicos (inclusive de armas
biológicas e de mudanças climáticas e fabricação de terremotos, tsunamis e
outros desastres ambientais), suas corporações e seu sistema
especulativo-financeiro.
Lembrando que fóruns
sociais mundiais para criação de uma nova ordem econômica e social mundial
pereceram definitivamente no final da década de setenta, quando já começava a
ser implantada a atual política generalizada de DOUTRINAS DE CHOQUE, que nessa
época se localizavam em alguns laboratórios, particularmente o Chile de
Pinochet, onde seus teóricos começaram suas experiências - os teóricos da Escola
de Milton Friedmann, onde estudou Paulo Guedes (a Escola de Chicago).
Segue abaixo, trecho
de um texto que escrevi semanas atrás, para falar do projeto da IKIAM. Projeto
jamais difundido no Brasil, onde no entanto muitos se esforçaram para desmoralizar
a política de Rafael Correa na Amazônia e dividir o movimento indígena por lá,
obedecendo a orientações dos que os financiavam, em particular a USAID
(entidade do governo americano).
Isso tudo,
infelizmente, é o que os advogados dessa trama, que considero nazista,
denominam de "processo civilizatório", porque sequer compreendem que
a Amazônia sempre foi povoada por milhares de grupos humanos que - com
profundos conhecimentos que estamos destruindo ao longo de pouco mais de cinco
séculos, ajudaram inclusive a constituir o que hoje entendemos como um espaço
"natural" e que não é: arqueólogos que estudam a Amazônia, para
compreender suas civilizações, focam atualmente nas formações vegetais que
foram criadas pelos seres humanos que a habitaram e que ainda a habitam. A
Amazônia é um espaço de NATUREZA DOMESTICADA.
Enquanto eu estava no
Equador, soube que o projeto da IKIAM, universidade criada pelo
Rafael Correa, que tinha por objetivo geral pesquisar técnicas para o
desenvolvimento sustentável da Amazônia, teve sua fonte de financiamento
impedida, por protestos indígenas que dividiram o movimento indígena entre
índios da selva e índios andinos. Era um protesto contra a exploração de petróleo
numa área indígena na região de Sucumbios, uma região miserável da fronteira do
Equador com a Colômbia, que certamente o Rafael Correa pretendia controlar
(região de muito narcotráfico e contrabando) e atender melhor também, a partir
desse projeto. Ele pretendia fazer isso de forma sustentável, mas desistiu do
projeto diante dos protestos. (...) Foi um momento em que financiadores
apertaram o cerco ideológico sobre o Equador também. E começaram a levantar o
nome do atual presidente traiçoeiro, Lenin Moreno (...). Um demagogo
piegas.
Essa divisão dos
movimentos indígenas no Equador, por sua vez, foi também promovida por ONGs
ligadas a USAID, entidade do governo norte-americano expulsa do país, mas que
continuava avançando através de ONGs. Inclusive brasileiras.(...)
Esse mesmo esquema foi
o que condenou a grande líder indígena guatemalteca, Rigoberta Menchu, como
alguém que teria sido corrompida pelo governo do PRI no México, logo depois que
ela esteve no Equador apoiando Rafael Correa no seu intento de processar a
Chevron por ter derramado óleo cru em floresta equatoriana ao longo de dez
anos, prejudicando mais de 30 mil índios. (Lembrando que a maior parte do
território equatoriano é ocupado por índios de origens diversas.) No Brasil,
contestei artigo da ADITAL, dirigida por católicos, que caluniava Rigoberta
Menchu, mas nunca tive minha contestação publicada por eles. Ou por qualquer
outra publicação. Ela esteve no México para pedir paz durante protestos contra
as eleições. Disseram que ela tinha sido paga pelo PRI. Ela foi a convite
do Tribunal Eleitoral do México. E doou o que ganhou por suas palestras a
entidades indígenas.
Recentemente, o
Tribunal da Haya, tribunal das Nações Unidas, com ajuda de informações
encaminhadas por Lenin Moreno, condenou o governo equatoriano a pagar uma
indenização à Chevron por ter pretendido multar a multinacional americana por
despejar óleo cru na selva por mais de dez anos. Vejam a ironia.
O projeto da IKIAM com
suas quatro linhas de pesquisas, uma delas, a pesquisa científica da
etnobotânica indígena da selva, visando a criação de projetos de
etnodesenvolvimento a serem implementados pelas diretorias regionais de
etnodesenvolvimento implantadas pelo governo de Rafael Correa de forma
sistemática em todo o país, ficou paralisado por falta de fontes de
financiamento, já que o planejamento de Rafael Correa previa que isso ocorresse
a partir da exploração de petróleo em Sucumbios, o que foi impedido por
protestos indígenas encabeçados por líderes indígena da selva, de oposição ao governo. Parece que em
particular, um deles. Essa - para Rafael Correa - seria a única forma de evitar
recorrer a financiamentos externos, subordinados a altos juros e condicionantes
políticas, a exemplo do que Lenin Moreno faz agora, depois de pedir gigantesco
empréstimo ao FMI - alegando que Rafael Correa teria deixado seu governo
endividado - o que não é verdade.
Mas, nada disso é
divulgado no Brasil. Embora eu compartilhe estas informações com editores há
muitos anos.
Esse mesmo líder
indígena de oposição apresentou um projeto de universidade indígena onde as
"Epistemologias do Sul" seriam ensinadas. Ele pretendia que o
governo financiasse o projeto. O governo disse que não dispunha de verbas para
isso. E novamente, Rafael Correa foi acusado de perseguição ideológica. O que
Rafael Correa tinha respondido à solicitação de apoio a essa nova universidade
é que não havia verbas, assim como a IKIAM tinha parado muitos de seus projetos
pelo mesmo motivo e que a proposta da universidade não tinha embasamento
científico.
Nada impede que uma
universidade do norte crie um espaço para estudar essas epistemologias por lá e
os financie. O interessante é que prefiram financiar protestos contra um
governo do Sul por não fazer isso. Imposições estranhas, não?
1 de setembro de 2020.
Inês Rosa Bueno - antropóloga brasileira.
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