domingo, 6 de setembro de 2020

Este vídeo “O INSTINTO IMORTAL”, domingos de setembro, 2020, é mais uma composição filosófico-poético do advogado penalista Vicente Fernandes Cascione, de quem fui colega de classe durante o curso de Direito em Santos (1961-1965); escreve ele todos os domingos na derradeira página do anexo de “A TRIBUNA”, Santos. O INSTINTO IMORTAL Era um trem verde-escuro. Junto às portas de cada vagão havia uma pequena bandeira da Suíça. Juntei as malas, capotes nos ombros, pés doloridos, caminhei pela plataforma. Aquele era o trem para Paris, partindo de Veneza, numa tarde de domingo cheia de solidão. Ainda pude olhar a noite descendo sobre o canal defronte da estação, onde algumas lanchas iam e vinham agitando as águas escuras. Era possível ouvir no ar o som de um lamento, como a voz da própria cidade, feita de amores trágicos, de traição e de mistério. O trem partiu, arrastando com ele restos de mim mesmo, não deixados perdidos nos campos de Verona, nas colinas de Vicenza, nas névoas dos Apeninos azuis, nos velhos corredores da Escola de Direito de Pádua ou nas vielas estreitas de Veneza. E enquanto a velha Torre de São Marcos seguia para o horizonte, afastando-se sem nenhum sentimento de gratidão, eu pude ver ser aquele um trem triste, pois triste é um trem carregando pessoas sem o desejo de partir. O meu trem era feito de adeus. De despedidas. De desencontros. Em verdade, meu trem era horrível...` Na cabina, à minha frente, estava uma velhinha, carregada de sanduíches, bombons e vinho. A seu lado, um “carabinieri”. E, junto a mim, uma viúva, ainda moça. Não era difícil adivinhar sua viuvez em seu traje negro, e em seus olhos, negros também, onde havia o vazio de todas as lágrimas já choradas. Éramos nós quatro. Mudos. Sisudos. Olhares cruzados. A velhinha impregnou o ar com um traço de dignidade humana. Ofereceu-nos vinho e bombons. Negativos e silenciosos movimentos de cabeça foram o tosco agradecimento de nós três, ali. Em uma pequena estação da Suíça o trem parou. Fazia muito frio. Desceram o soldado e a viúva. Puxei assunto com a pobre velha. Pobre sim. Como ninguém. Perdera a filha, o genro e os três netos, mortos numa trágica avalancha na cidade de Longarone. Nunca mais ninguém os encontrou sob a lama de Vajont. Agora a triste mulher viaja. Vai a esmo. Sem destino. Vai aonde lhe possam levar os trens tristes como aquele... Não sei se ela disse mais. Fazia frio e eu dormi no banco vazio. Ao despertar, antes de enxergar lá fora a alvorada brumosa, vi, estendido sobre mim, um xale de lã bem usado. Era o agasalho usado pela doce velhinha. Algumas folhas de jornais também, para eu não sentir frio, enquanto ela dormia, muito encolhida. Lá fora, o Sena mostrava o caminho para Paris deslizando pelos campos molhados da madrugada. Aquela mulher descobrira-se para aquecer este melancólico viajante. Quando desci do trem, eu tinha a alma em frangalhos pelo remorso de, ao despedir-me dela, não ter lhe beijado as mãos. E de não sair aos gritos pela escura estação de Paris naquela madrugada agonizante, para proclamar, aos bêbados, aos notívagos e aos viajantes da primeira hora, o gesto sublime daquela mulher solitária, caminhante curvada sob o peso dos anos e da dor. Mesmo tendo sido roubada dos bens mais valiosos de seu afeto, ainda assim, ela tinha tanto para dar, pela grandiosidade suprema capaz de redimir o mundo: o imortal instinto da maternidade. Aquela italiana, envelhecida e cansada, era talvez uma santa, a atender às preces de minha mãe distante, em favor deste cabeça-de-vento morto de frio nos trens tristes, verdes, escuros, portadores das dores e das saudades, de Veneza para Paris.

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