DESIGUALDADE SOCIAL
A desigualdade social no Brasil é
um problema que a atinge grande parte da população brasileira, posto porem que nos
últimos anos ela tenha diminuído.
As regiões mais sofridas com os problemas
sociais são o Norte e o Nordeste do país; apresentam os piores do Brasil
(Índice de Desenvolvimento Humano IDH's).
Resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD-2011) e
do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), apontam a desigualdade
social.
Assim, nos últimos anos 28
milhões de brasileiros saíram da pobreza absoluta e 36 milhões entraram na
classe média. Entretanto, estima-se que 16 milhões de pessoas ainda permanecem
na pobreza extrema. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea),
as transferências do Programa Bolsa Família são responsáveis por 13% da redução
da desigualdade no país.
(omissis)
Ainda que o Brasil esteja
entre os dez países com o PIB mais alto, é o oitavo país com o maior índice
de desigualdade social e econômica do mundo.
Segundo relatório de ONU (2010)
as principais causas da
desigualdade social são os seguintes: falta de acesso à educação de qualidade; política
fiscal injusta; baixos salários; dificuldade de acesso aos serviços básicos:
saúde, transporte público e saneamento básico.
Exemplos. Os maiores exemplos de desigualdade social
no Brasil (cumpre agradecer à autora deste texto — a professora de história,
Juliana Bezerra).
A desigualdade social no Brasil, marcada pela distribuição
desigual de renda, é evidente. Basta uma simples observação sobre a sociedade
em que vivemos:
1. Favelização
O cenário habitacional é um forte indício da condição de
desigualdade. O aglomerado de casas, em grande parte construídas nos morros,
contrasta com as mansões e as casas em condomínios fechados.
Muitas vezes localizam-se muito próximas umas às outras, o
que torna o contraste ainda mais chocante.
As favelas não passam por qualquer tipo de planejamento e
as casas tendem a aumentar à medida que as famílias crescem.
Por outro lado, isso não acontece com as casas nobres, as
quais são cuidadosamente projetadas.
2. Desigualdade alimentar
Há pessoas que não têm condições para comer o mínimo
necessário. Muitos passam fome, decorrendo daí quadros de desnutrição e muitos
casos de mortalidade infantil.
Acresce que a prioridade na hora de comprar os alimentos é
dada aqueles que sustentam mais, embora nem sempre sejam os mais saudáveis.
Por outro lado, existe uma fatia da sociedade cuja
quantidade e, especialmente, a qualidade dos alimentos, é garantida
diariamente.
3. Falta de saneamento básico
A realidade da falta de esgoto sanitário, do tratamento de
distribuição de água, entre outros, infelizmente ainda faz parte do cotidiano
de milhares de brasileiros.
Sujeitas a uma série de doenças, a falta de saneamento
básico pode levar pessoas à morte. Esse é um problema presente nas
periferias e mais evidente na região norte do Brasil, mas que passa ao lado da
classe alta brasileira, em cujos locais habitados e frequentados estão
garantidos o tratamento dos esgotos e a coleta do lixo.
4. Ensino de baixa qualidade
O acesso às escolas públicas é usufruído pelos que têm
menos possibilidades. Isso porque quem pode dispensa o ensino oferecido pelo
Estado, cuja condições são muitas vezes precárias, e investe nas escolas pagas.
A diferença é marcada pelos salários dos professores,
muito superior na rede particular, o que se traduz no incentivo para dar aula.
Além disso, a infraestrutura e os materiais disponibilizados nas escolas
privadas reforçam as diferenças entre ambas as situações.
5. Menos formação
Além da diferença na qualidade do ensino, quem tem mais
poder aquisitivo pode completar a educação acadêmica aderindo a cursos, muitas
vezes de valor elevado.
Os cursos de aperfeiçoamento, bem como as experiências no
exterior, são práticas comuns entre os mais favorecidos socialmente. Dos
intercâmbios, eles também levam a oportunidade aprender uma segunda língua.
Melhor preparados, os mais favorecidos ultrapassam o nível
dos que têm menos oportunidades, o que é mais uma prova de desigualdade social.
6. Desemprego
Depois de usufruir de um ensino melhor, os candidatos mais
qualificados também podem aproveitar um leque de oportunidades de trabalho mais
abrangente.
Apesar de não ser garantia para conseguir uma vaga
no mercado de trabalho, quando não há muitas vagas, o
diferencial é o fator de desempate.
Além das possibilidades aumentarem, é possível que o valor
das remunerações para os mais qualificados também seja superior.
Enquanto isso, os menos qualificados fazem “bicos” para
conseguir arcar com as despesas diárias.
7. Precariedade na saúde pública
Os mais pobres recorrem aos hospitais públicos, deparando
com a falta de profissionais e outros.
A carência financeira pode ser tão grande que a falta de
materiais e de medicamentos se torna uma realidade para as pessoas atendidas
pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Enquanto isso, os mais ricos recorrem aos hospitais
privados ou clínicas. Neles a gestão de recursos geralmente é mais eficaz e há
tecnologia para assistir a necessidade dos seus pacientes.
8. Precariedade no transporte público
Os meios de transporte também fazem a diferença na vida
das pessoas com mais ou menos renda.
A alternativa dos mais carenciados é a utilização de transporte
coletivo, muitas vezes, superlotado. Na maior parte do Brasil esse é um serviço
ineficiente, principalmente porque não garante acesso a toda a população.
Os mais favorecidos recorrem ao seu próprio meio de
transporte. Apesar do estresse do trânsito, eles podem planejar de forma mais
independente os seus horários e percursos.
Garantem também o benefício de poder transportar suas
coisas e ir sempre sentado, entre outros.
9. Falta de acesso à cultura
A população mais favorecida tem mais oportunidade para
usufruir de uma variedade alargada de atividades. São exemplos viagens,
concertos e visitas a museus e exposições.
Esses acessos, infelizmente, são restringidos a uma grande
parte da população brasileira. Isso porque certas atividades têm um grande peso
no orçamento de uma família e, assim, entram na lista das prioridades menores,
que acabam não sendo usufruídas.
Acontece que essas atividades aumentam a qualidade de vida
das pessoas, além de que alarga o seu nível cultural.
Decorrente, essencialmente, da má distribuição de renda,
as consequências da
desigualdade social no Brasil são observadas pela: favelização; pobreza;
miséria; desemprego; desnutrição; marginalização; violência. [itálico
nosso]
Estudiosos propõem soluções para o problema, dentre eles:
aliar democracia com eficiência econômica e justiça social.
*
*
Trabalho infantil no
Brasil
O uso da mão de obra infantil no
Brasil tem como objetivo o lucro, pois as crianças costumam ganhar menos que os
adultos.
No entanto, existe a questão cultural
e histórica, expressa em bordões antigos, porém ainda hoje utilizados, como:
"trabalho de criança é pouco, mas quem dispensa é louco".
O trabalho infantil está
presente no imaginário popular brasileiro. Afinal, o filho de uma pessoa
escrava já nascia nesta condição. Por isso, nos acostumamos a pensar que uma
criança pode exercer um trabalho, por mais pesado que seja.
Outra ideia muito estendida é a
que aponta o trabalho como alternativa para evitar que crianças e adolescentes
ingressem no mundo do crime.
A solução, contudo, é a oferta
de educação no modelo integral, assistência médica preventiva e curativa e,
ainda, acesso ao lazer e atividades culturais.
ANOTAÇÕES
Pontes
Democracia, Liberdade, Igualdade -- os três caminhos
652. Partindo de igualdade biológica "Os
homens são iguais na Biologia" (portanto, na Psicologia), a evolução
social tem sido no sentido
de se igualizarem os homens em
tudo que seja caso particular. Rigorosamente, não se tem feito mais do que
isso. Vale dizer: a evolução humana tem
sido apenas a explicitação da Biologia e da Psicologia.
Rigorosamente, não se tem feito
mais do que isso. Vale dizer: a evolução
humana tem sido apenas a explicitação da Biologia e da Psicologia.
Partindo de igualdade biológica
"Os homens são iguais na Biologia" (portanto, na Psicologia), a
evolução social tem sido no sentido de se igualizarem os homens em
tudo que seja caso particular [.] ). Rigorosamente, não se tem feito mais do
que isso. Vale dizer: a evolução humana
tem sido apenas a explicitação da Biologia e da Psicologia.
(omissis)
654 Quando empregamos "maior
igualdade", aludi- mos portanto ao caminho para se chegar à igualdade.
656 Outra consequência
lógica e histórica da igualdade
foi a exten- são da liberdade a todos. No estado atual da civilização, tirar liberdade é fazer desiguais os não-livres,
tirar igualdade é restringir a liberdade
(omissis)
As
grandes crises da Antiguidade, da Idade Média e dos tempos modernos têm sido
provocadas pela "igualdade
retardada". (omissis
(omissis)
658 Quando
o Cristianismo e os movimentos filosóficos dos últimos séculos disseram que os
homens são iguais, não proferiram julga- mentos de valor, mas julgamentos de
fato, enunciados no indicativo. Não
se proclamou: "Quero ou ordeno ou sinto que os homens são
iguais"; e sim, de
modo conciso: "Os homens são iguais". Aludiu-se à natureza do ente humano; não ao que se lhe concede ou se
lhe atribui.
(omissis)
658
A ciência afirma que o sangue não é diferente segundo as raças; nem segundo
o grau de civilização; nem segundo a
classe ou camada social.
(omissis)
674
A igualdade primeira é a do ser
humano. Segundo esse prin- cípio, todos nascem iguais em inteligência
necessária à vida de relação,
em instintos, em aptidão para o bem e para o mal, se bem que haja
entre os indivíduos diferenças
decorrentes de condições físicas e psíquicas (omissis)
679 Nenhum homem é exatamente igual ao outro, no executar o mesmo trabalho. Todavia,
fora dos casos excepcionais, ditos geniais, todos os homens são
substituíveis entre si, dentro de certo número com aptidões profissionais
semelhantes. (omissis)
680 (omissis)
a
igualdade econômica abrange: a) tudo
que é necessá- rio ao homem
como animal;
b) o que é
necessário ao homem como ho-mem; c) o que é acima desse quanto necessário — por
abreviação, dito o
supérfluo.
Que
há dois caminhos para se fazer a igualdade econômica: a) distribuir o que se reputa necessário ao
homem animal e como homem, segundo critério de mínimo; b) distribuir igualmente
o que é necessário e o que é
supérfluo.
A
distinção entre o próprio do homem e o próprio do animal aí está em forma
prática, porque ainda não se têm dados exatos sobre a percep- ção, a intuição,
o sentir e o pensar dos animais.
Nada
obsta a que o supérfluo atenda às diferenças
individuais. (omissis)
695 Em pleno século XX ainda se encontram
até autores católicos que de certo modo justificam a escravidão (um ex. é o
jesuíta Vítor Cathrein,
709 A desigualdade humana, obtida por meios artificiais — e.g., invasões usurpação do poder — conseguiu
fazer-se inserir no indivíduo:
há cultos e analfabetos; educados e não-educados; instruídos e não-ins-
truídos; pessoas que podem viajar, descansar, divertir-se, e pessoas que têm de viver entre o trabalho, a
comida e o sono. A miséria, num mundo que dilapida. De modo que erram aqueles
que pensam que as desigual- dades se eliminam por decreto: às vezes, a
igualdade tem de ser recriada. Nesse recriar a igualdade, há toda uma política
de plano, de meios e de ação.
Vale dizer-se: a sociedade tem de executar isso. São pois
igualdades que exigem todo um programa para se fazer e se conservar a igualdade. A esse programa hão de
corresponder direitos dos indivíduos a que se execute o programa, ou ficará ele
à mercê dos planificadores
e
executores.
Que direitos são esses? Por enquanto, sabendo que não
estão im- plícitos na forma democrática, nem no rol dos princípios de
liberdade, nem no princípio da
igualdade formal,
Em Psicologia, o ideal está intimamente ligado à violação
das regras. O homem primitivo conhecia momentos prefixados ou ocasionais em que isso ocorria. Expandia-se, rompia a
teia das proibições, a ensejos reiterados, deixando subisse à tona o que se
recalcou, pondo em movimentos, em atos, em mímica, em palavras, o que seria
sonho. As festas marcavam dias, horas, de exaltação permitida.
Ainda hoje, o carnaval e as comemorações oficiais se
prendem a esse passado de gritos e de excessos, desde que coincidam com o que
quer o povo. Nas formas políticas progredidas, perdem muito da dignificação brutal, exuberante,
que tinham nas tribos, nas saturnais romanas, porque há
menos necessidade delas. Nas formas políticas retrógradas, volvem à força original, aos ideais menos confessáveis, às violências
regressivas (omissis)
o
14 de julho francês, o carnaval brasileiro, festas anuais, revelam muito e tendem a desaparecer quando,
sob o despotismo, já não bastam à expansão. Os povos que têm mais necessidade
de se expandir, por ser maior
a hipocrisia, ainda que sob formas políticas mais progredidas, exigem
fes- tas periódicas mais freqüentes — cada mês, cada fim de semana — fazendo
mais curtos os intervalos entre as explosões cíclicas.
Privar
os indivíduos dessas oportunidades seria contra o ser humano. Porém o estado
atual da cultura perderia em conservar o que corresponde a épocas mortas. A energia psíquica pode
ser usada de modo mais sábio, evitando-se recalques inúteis, descidas demasiado
fundas ao arcaico, identificações falsas entre eu e ideal, que fazem as
manias, e proporcionando-se a cada um os meios de ser, também, o que deseja.
Os
mergulhos na multidão, em vez de servirem aos impulsos para a democracia, para a liberdade e para a
maior igualdade, conduzem
a horda primitiva, ao chefe, ao rei e a todas essas figuras associadas à
direção do rebanho, à monarquia, à simetria de centro, ao arcaísmo. Envenena-se
o homem com o passado longínquo, remotíssimo, ao tempo em que o pai não deixava
nenhum filho, nenhum membro do grupo, pensar em superá-lo. Período anterior
àquele em que os membros do grupo estavam abaixo dele e iguais (comunidade
totêmica), pois a igualdade somente surge quando a maioria mata o pai e o faz
em pedaços. Quando volta o paternalismo, já é dividido, espedaçado, para
chefiar famílias; e para limi- tar os pais, entre si, nos seus direitos, porque
se "pluralizou" o paterna- lismo. Todos os novos chefes dos grupos
primitivos se lembram de que mataram o pai e cada um pensa ter sido o
"herói". Às vezes reconhecem que foi um deles, o mais moço, o
que parecia menos perigoso (Oto Rank).
Ora,
todo esse "ir lá em baixo" prepara o homem para se recordar da descida, para aceitar a
arquia, o "pastor" do rebanho, uma vez que teve prazer em
"descer". A Idade Média usou e abusou disso; todas as formas despóticas conheciam o valor de tais
aviltamentos. O pai primi-
tivo ressurge, depois, como deus, com o seu sofrimento e a reminiscência
do
seu poder. Por onde se vê que se deve dar ao homem o meio de rea- lizar o seu ideal, fazer o quexi eleva, o que o funde na sociedade de
hoje, em vez de deixá-lo ao
azar das descidas ao arcaico, à horda primitiva (ns. 238-718).
O
indivíduo serve à sociedade de hoje fundindo-se nela: criando. Criar c descobrir, inventar,
pintar, tocar, jogar bem o jogo desportivo que ama, projetar edifícios, fazer o
seu jardim, correr terras, conhecer lugares e gentes. Desserve-se à
sociedade de hoje, descendo-se à horda e emer- gindo-se depois, recoberto de
magismo, de misticismo, de mitos, e envene- nando-se o ambiente em que se vive.
A
horda é irritável, trêfega, exaltada. Ama a César, ama
a Napo- leão, a Mussolini, a Hitler. Não foi a horda que fez as
Revoluções progressistas — foi a minoria que pensa e arrasta a massa; não foi
o pânico, foi o cálculo;
não foi o inconsciente, foi a consciência. Os homens que se puseram de parte, para ver,
foram os homens que desgarraram da horda primitiva, da horda
sujeita ao único homem livre, ao guia, ao chefe, archos, monarca, arcaico.
Compreende-se
que a desigualdade faça mal à psique humana, que os "pisados aos pés"
precisem divertir-se, sentir-se como descendo à horda e matando alguém, destruindo
alguma coisa, em símbolo.
A
facilitação de meios para o ideal fará melhor o
homem. Fará melhor a
sociedade, porque sociedade é o conjunto dos indivíduos. Precisarão menos de
beber, de assassinar, de roubar, de "batalhar".
O
homem necessita de ideal, dirigido para o futuro, e cada um tem o seu; e
dar-lhe o ideal de todos, o ideal primitivo, o ideal da horda, não basta a quem tem mais de
quinhentos mil anos de luta para se livrar da horda, para ser a si-mesmo e ver
serem a si-mesmos os outros. O voto que deposita na urna é-lhe essencial, como
lhe é essencial que só a lei — igual para todos — lhe limite a liberdade, como
lhe é essencial que coma
o que lhe apetece, vista o que lhe agrada, e pinte,
esculpa, dance, ou cante, ou faça pesquisas, porque por aí se eleva o seu eu.
Quando
o indivíduo aceita a profissão que corresponde ao seu ideal, a atividade que
tem de desenvolver ajusta-se ao plano geral impresso ao seu pensamento. Esse
plano se coordena à finalidade de toda a vida psíquica individual, criada pela
determinação endopsíquica e, em menor dose, exopsíquica.
Dir-se-á
que a orientação profissional pode ressoldar trabalho e ideal. Isso só é
verdade em parte. Primeiro, só se atende à aptidão, no sentido de capacidade para produzir
mais, e nem sempre coincide essa com o ideal do selecionado.
Segundo, se se admite que podem aparecer conseqüências más da cissura, a
seleção pelo valor produtivo passa, ainda nesse caso, à primeira plana, e nem
sempre, além disso, a ressoldagem é o me- lhor. Tudo se resume em se verificar
se a separação dos dois misteres causa dano ao indivíduo ou à
sociedade, e diligenciar-se para que, sendo assim, não se dê.
O
problema toma aspectos psicológicos surpreendentes. O defeito, a inaptidão relativa, atua como excitante para
que a simetria, a compensação, se estabeleça. Foi o caso de Demóstenes. é o de tantos pinto- res míopes, músicos surdos,
soldados e ditadores de talhe pequeno. Por outro lado, melhor parece que o
sadista, a sonhar com cortes e sangues,
se
faça cirurgião, do que enrede por algum caminho expansivo de perigos, como
fazer-se policial ou feitor de fábrica. Stekel falou
dos homens, com instintos
criminais, que se fazem juízes, que têm tal ideal, desde cedo; e esta figura bastaria para se ver
que a satisfação dos ideais tem de ser estudada a fundo, para que o próprio
impulso, inda mesmo o momentâneo, de compensação anagógica atenda aos
interesses gerais. Ao lado da orientação profissional, com o intuito de
aproveitar a todos segundo as suas capacidades, precisa estar a orientação do
ideal, dos desejos, que proporcione a cada um o que lhe é necessário, sem dano ou
risco para a sociedade.
Os
homens apresentam extraordinária variedade de aptidões e gostos ou ideais.
Seria erro reduzi-los a camadas arbitrárias (todos os descendentes de uma
classe para trabalhadores, todos os descendentes de outra para dirigentes), igualizando o que é desigual, aparando as desigualdades
naturais que são valores. Ora, os movimentos em prol da igualdade, que se têm
observado no mundo, sempre foram movimentos que serviram a que as
desigualdades naturais dos indivíduos ressaltassem. A rigor, a igualização crescente entre os homens apenas
constitui o processo de desartificialização, que desbasta o espírito das crenças de que alguns
falam em nome de Deus e podem salvar as almas, de que o ofício do mecâ- nico, ou o do gravador, é inferior ao daquele
que "dirige" a fortuna própria. Desde que se igualizou um pouco mais, o Ocidente chegou à
pujança do século XIX e começo do século XX. O que se seguiu, depois, de
sofrimento, de destruição, foi feito pela persistência de
"desigualdades" irreduzidas — pelos "descendentes de cangurus" e pelos outros "desiguais", que
giram em torno deles.
Tanto
em Sociologia quanto em Psicologia, o direito ao ideal, com os corolários práticos da diagnose e da orientação, já assume altíssimo
papel. A técnica está a especializar-se cada vez mais; os desejos e aptidões,
na sua imensa variedade, estendem, adiante dela, riqueza quase infinita. Além
disso, tem-se chegado à conclusão de que a aptidão e a habilidade profissionais
dependem mais da psique do que das qualidades ditas físicas. A chamada
habilidade manual supõe "superioridade" no conjunto de aptidões
psíquicas físicas, harmonizadas. No entanto, do seu uso terminante- mente se afastam filhos de famílias ricas,
porque implicaria "desclassificar-se". (Ao longo do tempo, a
repetição de tais fatos retira das mãos da
classe dirigente o poder econômico, pela ascensão de outros
elementos antes
superados, estabelecendo-se a "era do parvenu".)
No
passado, a atribuição das profissões podia ser quase indiferente às aptidões e desejos.
Daí ter sido possível o sistema corporativo da Idade Média. Agricultores,
artesãos-artistas, nobres, soldados (tirados das três
camadas).
O espírito mesmo recebia a discriminação produzida por sentimentos coletivos
profundos. As diferenças de iniciativa, de desejos, de aptidões, dentro de cada
profissão, eram pequenas. A indústria, a liber- dade individual e a igualdade formal ainda
não haviam proporcionado ao homem o ser a si-mesmo, com o melhor de si-mesmo,
na vida: as altea- ções individuais, os mais ricos de energia psíquica,
metiam-na em arrancadas místicas, em requintes de artes plásticas, de
pensamento "compensador", de música, de ascetismo.
No
presente, a indústria, a liberdade individual, a igualdade formal e a nascente
igualdade material permitiram que o indivíduo emergisse da vida. O
extraordinário valor, que se reconhece à imaginação e à perseverança do
trabalhar pensando, impulsionou a ciência e a técnica. Os novos homens vindos
das fábricas, suplantaram os sedentários sem imaginação e sem gosto do
trabalho, o homem hórdico da caverna e o seu chefe, que governava
sentado no trono ou divertindo-se em caçadas — ou nos "bancos",
formas ulteriores das banquetas greco-romanas, onde o cambista, sentado,
trocava as peças de dinheiro. As individualidades e, com elas, as personalidades,
multiplicaram-se, em coordenação eficaz, que a técnica e a indústria se
encarregam de desenvolver, quase mecanicamente. Aí está, sem dúvida, grande
bem.
Mas
há o lado ruim.
As
próprias condições atuais do sistema exclusivo do lucro suscitam giaterialismo, quase sempre sem atenuações, no
pensamento e na ação das classes dominantes. Já se havia observado o mesmo, a
menor escala, em anteriores momentos de decadência, como a dos Gregos e a dos Romanos. A atividade
intelectual independente está em perigo, hoje como outrora.
O
que se pede são técnicos para coisas de conforto imediato — só o material. Na American Physical Society, o
físico americano P. W.
Brid- gman,
em 1942, chamava a atenção dos seus colegas para esse crescente e único reclamar de técnicos
"assuring a satisfactory degree of common ease and comfort", e expressava os
seus temores de que "possa a sociedade sentir que o cientista já não tem
mais o que dar em assunto de benefícios materiais, bastante para que se
justifique conservá-lo". E esclarecia o seu pensamento: "Precisamos
ensinar aos moços filosofia social que reconheça ser a sociedade meio, e não
fim; e precisamos dar-lhes técnica
com a qual possam descobrir aqueles fins que eles aceitem com
integridade intelectual, como fazendo sociedade que valha a pena".
Palavras que coincidem com as nossas, para aquém de dez anos antes.
O
divertimento, a leitura, o esporte têm ficado à parte restrita das populações.
Viajar é privilégio de ricos. Nas viagens, nas visitas a mu- seus de arte e de ciência, nos
jogos, os favorecidos compensam os seus sentimentos desajustados, as suas
psicoses e neuroses. O pobre, não. Não
se lhe deixam válvulas para o bem: a detenção, o hospício, o inferno dos
sofrimentos psíquicos e
morais. O próprio médico ao seu alcance nada entende disso. Receita. Não perde
tempo com quem não lhe pode pagar. Talvez ele-mesmo, o médico, não possa ter
férias nem lazeres, nem podar as suas
árvores frutíferas, ou dar alpiste aos seus pássaros, o que tanto o
descansaria, o que tanto o ajustaria ao seu ideal de bem.
A
diversidade de ideais exige a diversidade de meios para os satisfazer. Não se
procedeu ainda à pesquisa de tipos psicológicos segun- do os ideais. Tudo leva a crer que
existe a tipologia dos ideais, que seria capítulo da tipologia psicobiológica,
correspondente à classificação dos des- gastes de energia psíquica, com as
suas diferentes direções endopsíquicas, neuróticas, musculares. A intensidade e
a variedade das aspirações fize- ram os
homens, animais tão fracos, os seres mais poderosos da terra, e estenderam por
todos os continentes a exuberância da arte, da religião, da moral, da ciência,
da indústria, da política humana. O homem, hoje, já se conhece bem. É com esse
conhecimento de si-mesmo e do domínio das coisas que tem de
soldar as duas partes ou aproveitar, pelo melhor, a ambos.
A
escolha, do ideal faz-se aos poucos. A princípio, vacilante; sofre a influência de fatos circundantes, de êxitos invejáveis de pessoas
próxi- mas ou de heróis da época. Em verdade, porém, nasce cedo, ligada
aos primeiros anos da infância, ainda
que suscetível de conter algumas variantes. A determinação da profissão não é
tão "individualizada". Nasce-se com certas disposições ou se
adquirem certas condições para se ser melhor num grupo de profissões do que nos
outros, ou do que em alguns dos
outros. Acidentalmente, pode dar-se ser o melhor ou dos melhores
para um grupo, ou dois
ou mais grupos de profissões.
A
participação do homem comum na vida social já alcançou, desde o século XIX, a
própria ciência. Os que têm vocação, ideal cientí- fico, mas, desgraçados, não
são gênios, tiveram caminho aberto em investigações e colecionamento de dados.
Aprenderam os métodos de pesquisa, seguem as pegadas dos mestres descobridores,
às vezes continuam as vere- das que eles iniciaram. De modo que a massa de
trabalho que a ciência experimental exige pode ficar a grande número de homens
medíocres, com proveito para ela e para eles: os outros seriam raros e, no
sistema de educação para privilegiados preguiçosos, cada vez mais escassos.
Esses
Seção II
Da Cultura [direito ao ideal]
Art.
215. O Estado garantirá a todos o
pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional,
e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.
§ 1º O
Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e
afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo
civilizatório nacional.
§ 2º A
lei disporá sobre a fixação de datas comemorativas de alta significação para os
diferentes segmentos étnicos nacionais.
§ 3º A lei estabelecerá o Plano Nacional de Cultura, de duração
plurianual, visando ao desenvolvimento cultural do País e à integração das
ações do poder público que conduzem à:
I -
defesa e valorização do patrimônio cultural brasileiro;
II -
produção, promoção e difusão de bens culturais;
III -
formação de pessoal qualificado para a gestão da cultura em suas múltiplas
dimensões;
IV -
democratização do acesso aos bens de cultura;
V -
valorização da diversidade étnica e regional. (Parágrafo acrescido pela Emenda Constitucional nº 48, de
2005)
Art.
216. Constituem patrimônio cultural
brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou
em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos
diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem:
I - as
formas de expressão;
II - os
modos de criar, fazer e viver;
III - as
criações científicas, artísticas e tecnológicas;
IV - as
obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às
manifestações artístico-culturais;
V - os
conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico,
arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.
§ 1º O poder
público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio
cultural brasileiro, por meio de inventários, registros, vigilância, tombamento
e desapropriação, e de outras formas de acautelamento e preservação.
§ 2º
Cabem à administração pública, na forma da lei, a gestão da documentação
governamental e as providências para franquear sua consulta a quantos dela
necessitem.
§ 3º A
lei estabelecerá incentivos para a produção e o conhecimento de bens e valores
culturais.
§ 4º Os
danos e ameaças ao patrimônio cultural serão punidos, na forma da lei.
§ 5º Ficam tombados todos os
documentos e os sítios detentores de reminiscências históricas dos antigos
quilombos.
§
6º É facultado aos Estados e ao Distrito Federal vincular a fundo estadual de
fomento à cultura até cinco décimos por cento de sua receita tributária
líquida, para o financiamento de programas e projetos culturais, vedada a
aplicação desses recursos no pagamento de:
I -
despesas com pessoal e encargos sociais;
II
- serviço da dívida;
III
- qualquer outra despesa corrente não vinculada diretamente aos investimentos
ou ações apoiados. (Parágrafo acrescido pela Emenda Constitucional nº 42, de 2003)
Art.
216-A. O Sistema Nacional de Cultura, organizado em regime de colaboração, de
forma descentralizada e participativa, institui um processo de gestão e
promoção conjunta de políticas públicas de cultura, democráticas e permanentes,
pactuadas entre os entes da Federação e a sociedade, tendo por objetivo
promover o desenvolvimento humano, social e econômico com pleno exercício dos
direitos culturais.
§
1º O Sistema Nacional de Cultura fundamenta-se na política nacional de cultura
e nas suas diretrizes, estabelecidas no Plano Nacional de Cultura, e rege-se
pelos seguintes princípios:
I -
diversidade das expressões culturais;
II
- universalização do acesso aos bens e serviços culturais;
III
- fomento à produção, difusão e circulação de conhecimento e bens culturais;
IV
- cooperação entre os entes federados, os agentes públicos e privados atuantes
na área cultural;
V -
integração e interação na execução das políticas, programas, projetos e ações
desenvolvidas;
VI
- complementaridade nos papéis dos agentes culturais;
VII
- transversalidade das políticas culturais;
VIII
- autonomia dos entes federados e das instituições da sociedade civil;
IX
- transparência e compartilhamento das informações;
X -
democratização dos processos decisórios com participação e controle social;
XI
- descentralização articulada e pactuada da gestão, dos recursos e das ações;
XII
- ampliação progressiva dos recursos contidos nos orçamentos públicos para a
cultura.
§
2º Constitui a estrutura do Sistema Nacional de Cultura, nas respectivas
esferas da Federação:
I -
órgãos gestores da cultura;
II
- conselhos de política cultural;
III
- conferências de cultura;
IV
- comissões intergestores;
V -
planos de cultura;
VI
- sistemas de financiamento à cultura;
VII
- sistemas de informações e indicadores culturais;
VIII
- programas de formação na área da cultura; e
IX
- sistemas setoriais de cultura.
§
3º Lei federal disporá sobre a regulamentação do Sistema Nacional de Cultura,
bem como de sua articulação com os demais sistemas nacionais ou políticas
setoriais de governo.
§ 4º Os Estados, o Distrito
Federal e os Municípios organizarão seus respectivos sistemas de cultura em
leis próprias.
homens
medíocres, com ideal científico e certas qualidades de paciência, honestidade e
clareza, puderam satisfazer os seus desejos, os seus ideais, de concorrer para o conhecimento e
a técnica.
Poucos
prestam atenção a esse fato, que não é separado de outros fatos, que são como
degraus comuns de escada de três lances (democracia, liberdade, maior
igualdade): a ciência mesma acolheu o homem comum; a ciência mesma deu-lhe a
oportunidade de triunfos legítimos, de vir a ser grande homem autêntico, com as suas qualidades morais e
o seu trabalho. Mediante esse aproveitamento, útil à sociedade e ao
indivíduo, o homem comum
medíocre alcança êxito onde o possível gênio, o provável grande talento — por
falta de amor ao trabalho e de certa perseverança, veracidade e retidão — nem
sempre consegue. Muitas vezes, nem tenta, enchendo os dias com os esportes, o
jogo, sucedâneo das caçadas e pescarias, cada vez mais raias. O laboratório
tornou-se, também ele, instrumento de democratização, de liberdade e de
igualdade maior.
Dos
homens comuns que vão à ciência saem os homens medíocres que apenas empurram, mais para frente a
pesada mole do saber, e sabem mais um bocadinho do que os outros, num recanto
qualquer. Mas deles saem também os
grandes descobridores e inventores, que se utilizam do material compacto,
socialmente organizado, e o "mais além" prometeico.
A
especialização, em vez de ser o mal, que tantos exprobram, é um grande bem. No terreno prático,
não se discute. No terreno psicológico, permite a maior probabilidade de êxito,
sem vedar que o especialista se expanda (só ele, hoje em dia, está em condições
de expandir-se). No terreno social,
tornou impossível o prestígio do falso saber, daqueles ridículos mestres que Descartes e Newton encontraram e repeliram, dos escolásticos de todos os tempos. Os especialistas
adquirem, pelo menos, o
hábito de ver fatos e pedir provas. Os defeitos, que se lhes apontam, são menos devidos a eles do que ao
ambiente exterior, tal como é: ines- pecializado.
Expliquemo-nos.
Que é que se menospreza neles? Certa estreiteza de vista, certa demasiada confiança
de quem vive em casulo, ou
em cortiço de abelhas, certo "saber de cor
o seu papel", que os asseme-lha às formigas, certa petulância com que se
crêem habilitados a falar de outros assuntos. De todos esses defeitos, só um
verdadeiramente o é — o último.
Mas desse mesmo não é sua a culpa. Cá fora, no social, per- sistem tantas antiqualhas místicas, tantos mitos bolorentos,
tanto pensamento alógico, acientífico, estúpido, que é difícil
poder o próprio especialista do laboratório, acostumado no entanto a respeitar
a especialidade alheia, inclusive a do que trabalha na sala próxima,
respeitá-lo. Como haveria o próprio economista, ainda o clássico, de ter
considerações pelo irracional, que se fez, [] no governo dos povos?
Só a especialização, levada aos
setores da vida social, faria respeitável, de novo, a vida. Uma das condições
para a sua respeitabili
dade é reorganizar-se, de forma a que seres racionais a possam
julgar. Outra condição — de
reestruturar-se, de modo a libertar os especialistas do jugo do capital, que os
explora, que não lhes dá tempo para as sínteses à NEWTON, à DESCARTES e
EINSTEIN, nem sequer para descobertas que “não estejam no programa”. O ideal
pode ser examinado em relação ao que
se há de dar a ele no dia, na semana, no mês. Aqui está outro
aspecto que temos de
levar em conta.
O problema social do
“empregar tempo” começa na Psicologia. A certa idade, as crianças têm de
“encher o seu dia”. Depois, umas continuam a enchê-lo de brinquedos, de jogos.
Outras não no têm para os brinquedos e para jogos: desde cedo tiveram de
trabalhar, ou nada têm com que brinquem, ou com que joguem. Mais tarde, o
problema do adulto não é muito diferente: uns enchem o seu tempo com as diver-
sões, os gozos, as leituras; outros não têm tempo para isso e reduzem as
diversões a mínimo (os cigarros, a bebida barata que podem comprar).
Todos esses
problemas encontravam soluções aproximadas, ou aceita- veis, à falta de outras,
nas idades em que o escravo e seus filhos faziam parte do grupo familiar, ou em
que os servos tinham a sua vida estável, relações com os seus iguais, festas
religiosas e outros divertimentos ao alcance deles. Os nossos dias são bem
diferentes da Antiguidade, da
Idade Média e dos próprios séculos que se lhes sucederam.
Claro que o
remédio para a intranquilidade resultante de neuroses, psi- coses e
criminalidade das classes desfavorecidas, ou menos favorecidas, não é, de modo algum, o “método de GIESE”,
que no passado decênio se empregou na Alemanha e alhures: “cultivar” inimizades
e rivalidades de classe entre diferentes profissões de operários e empregados,
“para que o operariado deixe de se organizar”; ou de incentivá-las entre
operários e empregados de diferentes nacionalidades, ou procedência, ou
religiões, ou de cores diferentes, para se conseguirem os mesmos resultados.
Quem vai por esse caminho, regando o ódio, não vê que esses ódios,
temporariamente “fixados” no objeto que se lhes aponta, persistem, ainda depois
de gasto o método, e se somam ao ódio normal da luta de classe. Chegou-se a
chamar a tal monstruosidade “método psicocrático”, método de dirigir mediante
arreios, freios, algemas para a alma. Viram-se-lhe apenas os resultados
imediatos. Os tais psicólogos ignoravam, ou procederam como se ignorassem, que
o ódio fica, ainda que varie o objeto.
O que
cumpre fazer-se é partir do homem como assunto de estudo e de cuidados sociais,
sem distinções de qualquer natureza. Ciência que chegou a conclusões
tais, como a de que é impossível diminuir o número de neuroses, psicoses e crimes, mantendo-se
as profundas desigualdades sociais existentes, procederia contra a sua própria
razão de ser, servindo a essas
desigualdades. O ressentimento, que vem de longos tempos e agravou neste
século, e cada dia se agrava mais com o falso dilema econômico que se pôs:
“Fascismo ou Revolução catastrófica” (solução 7 ou solução 6), acabara por
fazer tal dilema psicologicamente verdadeiro.
Quem quer
que examine a história industrial-operária dos Estados Unidos da América, até o
começo deste século, e a da Europa, não pode ocultar que, ao lado do fator
exploração, há outros, de ordem psicológica
— os resultados da inferiorização social maior na Europa do que nos
Estados Unidos da América.
Os distúrbios
sociais — doenças, crimes, desastres, desordens, deficiências etc. — causados
pela falta de tempo e de meios para as diversões custou aos ricos da Europa
muitíssimo mais do que centenas de vezes o que se gastaria com isso. Por outro
lado, o desemprego produz distúrbios e consequências psíquicas que atingem, bem
fundo, a concepção da vida e a moralidade.
Ora, lutar
contra a “luta de classes” não é acirrar a luta. Seria proceder como quem quisesse
apagar o fogo e pusesse mais lenha. Tampouco seria aceitável, no plano
psicológico, aumentarem-se as hostilidades internas das classes desfavorecidas.
Mexendo-se o fogo, atiça-se a fogueira. Tem-se de combater nas causas. Se é que se quer realmente com- batê-la. Porque, se não se quer, o remédio
está historiado em TUCÍDIDES e em ISÓCRATES. Em certas cidades gregas, em
período que corresponde ao nosso de agora, desceu-se à infância do juramento
que os oligarcas prestavam: “Serei o adversário do povo, e far-lhe-ei no
Conselho todo o mal puder”. Mas, então, se assim é a civilização ocidental vai
suicidar-se, como a grega a partir da guerra do Peloponeso, desde quando
preferiu estraçalhar-se a dar soluções aos seus problemas de evolução social.
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